Vilões de filme, em carne e osso

A principal característica dos vilões de filme é a falta de empatia: a total indiferença ao sofrimento alheio.

De Voldemort a Darth Vader – passando por Freddy Krueger e similares -, é assim que eles são. Se começam a se importar, deixam de ser vilões (como Darth Vader, no filme VI).

Essa é a definição de maldade – pelo menos para os roteiristas de cinema.

Manter uma grande distância, criar camadas de hierarquia dentro de empresas, construir muros, ter aluguéis muito mais altos em algumas áreas, tudo isso ajuda a manter os diferentes isolados uns dos outros (e a aumentar a indiferença de quem está em um grupo por quem está em outro). Tudo isso conspira para  nos tornar mais parecidos com os vilões de filme.

Pensei nisso quando estava tentando criar um bom vilão para um conto. Mas, depois que comecei a pensar em divisões e muros, não consegui parar de associa-los às  políticas anti-imigração defendidas – com cada vez mais ênfase – por políticos na Europa e nos Estados Unidos.

Sim, é coisa de vilão de filme.

Falta fazer o filme ou, pelo menos, escrever o conto.

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Cozinheiro bovino: nenhuma empatia com o prato.

Murakami, Monk e os comedores de chocolate

A paz está no chocolate amargo. A sensação de paz, pelo menos. É possível que o mundo pareça perto do fim – com tiroteios na esquina, crise política e recessão interminável. Mas é possível que, ainda assim, nos sintamos calmos e tranquilos – graças ao chocolate (ficar angustiado, afinal, não ajuda).

As sensações não estão lá fora. Sim, o mundo em volta afeta nosso cérebro. Mas o chocolate também. E, dependendo da quantidade, talvez o chocolate prevaleça.

Mas se, mesmo com uma dose grande, o chocolate não funcionar, recomendo esta versão solo para piano de Round midnight, tocada pelo autor da música, Thelonious Monk.

Haruki Murakami – hoje famoso pelo pop 1Q84 – começa seu primeiro livro, Ouça a canção do vento, com a seguinte declaração (que me fez comprar o livro):

“- Não existe nenhum texto perfeito. Assim como não existe desespero perfeito.”

Entendi a correlação e sei que nunca vou produzir o texto perfeito – graças a Monk e a grandes doses de chocolate.

Mas, se nada disso surtir efeito, a alternativa escapista mais eficiente é Caçando carneiros, continuação de Pinball 1973, que é a continuação da Canção do vento. O livro funciona bem sozinho, sem os dois primeiros – e é o melhor Murakami que li até agora: uma passagem de ida para um mundo ainda mais surreal mas, curiosamente, mais bem humorado.

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Ovelha escapista imaginando quando 2016 vai realmente acabar.

O limite do egoísmo, segundo Smith

O Brasil não tem liberais (ou melhor: tem uns quatro ou cinco, entre os quais, eu mesmo). Aqui, quase todas as pessoas que se dizem liberais são conservadores disfarçados.

O clássico para ver quem é liberal e quem é conservador é perguntar sobre costumes. Um liberal de verdade defende a liberdade de costumes. Isso inclui liberação do uso de drogas, união civil entre pessoas do mesmo sexo, direito ao aborto e uma série de bandeiras que os conservadores preferem entregar de bandeja para a esquerda.

Esta semana, relendo A teoria dos sentimentos morais, encontrei mais um teste para diferenciar liberais de conservadores. O livro, publicado em 1759, é o primeiro grande tratado de Adam Smith. É um livro sobre ética.

O trecho abaixo, lido por um conservador brasileiro (ou por um aristocrata de qualquer lugar do mundo) o fará torcer o nariz. Se fosse levado a sério por aqui, não haveria falta de recursos para o SUS, as políticas públicas seriam mais bem executadas e, até nas empresas privadas, os chefes seriam mais solícitos.

“(…) talvez ter a notícia da morte de outra pessoa com a qual não tenhamos especial ligação nos cause muito menos interesse, tire muito menos nosso apetite, interrompa menos nosso descanso, do que uma insignificante desgraça que se abata sobre nós. Mas embora a ruína do nosso próximo possa nos afetar bem menos que um diminuto infortúnio nosso, não devemos arruiná-lo para prevenir esse pequeno infortúnio, nem mesmo para prevenir nossa própria ruína. Aqui, como em todos os outros casos, devemos nos ver não tanto sob a luz em que naturalmente nos mostramos a nós mesmos, mas sob a luz em que naturalmente nos mostramos aos outros.”

Smith discute muito, ao longo do livro, o tipo de empatia que as pessoas têm umas com as outras, a forma como vêem a si mesmas e como formam suas opiniões a respeito das outras pessoas.

No PDF do link acima, esse trecho está na página 74 (Seção 2, Capítulo 2 – Sobre o senso de Justiça, remorso e sobre a consciência do mérito). E, se você achou esse trecho hipócrita e não se importa em causar infortúnios à plebe para tornar sua vida um pouco mais confortável, parabéns: você é um aristocrata ultraconservador.

Por fim, um dos trechos mais revoltados do pai da teoria econômica. Esse me convence de que, se vivesse no Brasil de hoje, Smith seria um democrata, mas um democrata dos mais barulhentos.

“Apesar de tuas opiniões em questões especulativas, apesar de teus sentimentos em questões de gosto serem bastante contrários aos meus, posso facilmente ignorar essa oposição; e, se tenho alguma temperança, posso até mesmo apreciar a sua conversa, ainda que sobre esses mesmos temas. Mas se não tens nenhuma solidariedade para com meu infortúnio, ou nenhuma que seja proporcional à dor que me assola; ou se não sentes nenhuma indignação pelas ofensas que sofri ou nada que seja proporcional ao ressentimento que me arrebata, já não podemos conversar sobre esses temas. Tornamo-nos insuportáveis um ao outro. Não posso tolerar tua companhia, nem tu a minha. Ficarás confuso ante minha violência e paixão, e eu, irado com tua fria insensibilidade e falta de sentimentos.” (Em inglês  parece bem mais incisivo. Está no meio do primeiro parágrafo da página 16, faz parte do Capítulo 4 – Continuação do mesmo assunto).

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Falcão conservador, com iluminação e saneamento precários.

Presente de natal

Está de graça, na Amazon, o livro que incluí no site, em setembro, para disputar um prêmio de literatura (que não ganhei). O site  da Amazon não permite que os livros fiquem de graça mais de cinco dias. O livro está de graça, então, neste link, entre 24 e 28 de dezembro. Depois disso, volta a custar R$ 2,00.

O texto é a história de amor entre uma estudante de matemática sem escrúpulos e um estudante de letras sem dinheiro.

Além disso, juntei em PDF (em um formato que cabe em telas pequenas, como a do kindle), meus contos do fundo da gaveta. Eles são razoavelmente engraçados e ficarão de graça, em PDF, para sempre.

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Plantação de papel, Valença, Rio de Janeiro.

Gatsby, Bovary e tudo de novo

O efeito dos livros muda com o tempo. Não é só porque demoramos a perceber alguma sutileza do autor, mas também porque as referências que temos, olhando em volta, mudam.

Um exemplo quase caricato é Madame Bovary. Quando terminei o livro, odiava a madame do título. Cheguei a ficar feliz com sua morte sofrida e desesperada.

Uma semana depois, eu adorava Madame Bovary e lembrava a frase famosa de Flaubert sobre quem tinha servido de inspiração para a personagem:

“Madame Bovary sou eu!”

Depois de algumas noites digerindo o texto, ficava claro que Emma Bovary não tinha muito como ser diferente do que era, que, no marasmo provinciano em que vivia, sua alternativa para não morrer de tédio ou de inanição era mesmo ser Madame Bovary.

Com O grande Gatsby foi parecido. Quando virei a última página do livro, pensei que era um texto leve e fácil de ler. Mas era só isso.

Levei algumas semanas para me dar conta de como o livro desmonta a aristocracia americana dos anos 20. Não fica pedra sobre pedra.

Mas o desmonte é feito com tanta sutileza que, enquanto lemos,  mal nos damos conta do que está acontecendo. São os detalhes mais delicados do livro que vão tornando concreto e verossímil o modo como os herdeiros do nordeste americano não se incomodavam em destruir a vida de mortais comuns se isso pudesse lhes poupar um ou outro aborrecimento.

Mas, se Emma Bovary se justificava pela crise existencial que poupava a si mesma com seus affairs e dissipando a fortuna da família, eu é que não gostaria de ser próximo a ela (assim como não gostaria de viver com os aristocratas yankies dos anos 20). Para os personagens próximos, que sentiram o efeito destrutivo das decisões de Emma, “Madame Bovary sou eu” não bastaria como justificativa.

Acho que voltei a detestar Emma Bovary (e que vou ler mais livros de F. Scott Fitzgerald).

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Jay Gatsby, em seu melhor retrato.

O triunfo dos ressentidos

O mundo não vive só de ressentimentos mas, não há como negar, eles têm um papel importante nessa confusão.

“Se Deus não existe, quem está no controle?”, pergunta um escritor esfomeado a Berlioz, o poderoso editor da revista literária de Moscou.

“O homem”, responde Berlioz, “O homem está no controle”.

É curioso que, embora o Diabo em pessoa – e toda sua entourage  – tenham destaque nas páginas de Mestre e Margarida (do mestre Mikhail Bulgacov), o vilão da história seja Berlioz.

Ele poderia ter dito: “Ninguém. Ninguém está no controle”. Seria menos arrogante e mais realista.

O Diabo, ressentido, corta a cabeça de Berlioz e a leva – viva – a uma festa. Afinal, quem era aquele homenzinho para dizer que o Diabo não existia?

A Rússia estalinista, onde a história se passa, era, de fato, uma fábrica de ressentimentos. A revolução que a tinha criado era uma revolução ressentida, ansiosa por cortar cabeças (como tantas outras revoluções).

Os regimes dos anos 20 e 30 do século passado vieram do ressentimento com a crise econômica. O mundo vivia um salto tecnológico, com eletricidade chegando às casas, automóveis nas ruas e até telefones. Mas as economias patinavam em uma longa crise, com hiperinflação, desemprego e falta de perspectiva.

E isso gerava muito ressentimento.

Políticos populistas oferecendo bodes expiatórios se elegeram apoiados nesse ressentimento. Os efeitos desse desembarque populista no poder são uma história bem conhecida.

E não há teoria conspiratória possível. De fato, ninguém estava no controle. Ninguém. Nem mesmo os autocratas populistas mais convictos. Eles tinham que jogar para a platéia, que oferecer o circo de horrores que tinham prometido para se eleger ou que cortar as cabeças dos possíveis conspiradores, ou que entrar em guerras que acabariam perdendo…

Prever o futuro distante é notoriamente impossível. Mas tentar não repetir erros é algo bem razoável. E tentar antever catástrofes (pelo menos para manter alguma distância) também não é nenhum delírio premonitório.

Não que a gente controle alguma coisa. Mas é bom ter ideia de para onde correr.

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Bode republicano comemora vitória de Donald Trump.

Anos 90

Acabei de ler Meia noite e vinte, de Daniel Galera, que me lançou em uma espécie de flash back dos anos 90, quando – assim como os personagens do livro – eu também estudava comunicação e achava que ia revolucionar a literatura fazendo um site com amigos de faculdade.

No fim dos anos 90, o mundo parecia estar melhorando. A inflação estava diminuindo, havia emprego para estudantes de comunicação e as nossas preocupações eram escrupulosamente pessoais – como devem ser para pessoas com menos de 20 anos de idade.

Tudo parecia muito importante, como se todo o nosso futuro (ou, pelo menos, nosso presente) pudesse depender de uma troca de sorrisos em uma discoteca fumacenta em Botafogo (ainda se fumava em lugares fechados naquela época).

Agora, uma Dolores de 1993 está cantando No need to argue em uma versão ao vivo na tela do computador.

É estranho que nada do que escuto de mais recente me pareça minimamente tão significativo quanto essas velhas gravações de Cranberries, REM ou Nirvana.

Acho que as pessoas sabiam, eu sabia, na época, que estávamos ouvindo algo extraordinário.

Vou acabar como aqueles velhinhos que ficam repetindo que no tempo deles era melhor.

Fazer o quê?

E o pior é que nem era. De melhor, só a trilha sonora.

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Nove e cinquenta.