A importância de imaginar o que os outros sentem

A empatia (ou a falta dela) é a grande questão da nossa época.

Com o aumento das desigualdades de renda e patrimônio, a pobreza relativa – a falta de acesso a serviços como educação e saúde de qualidade – vai ficar cada vez mais evidente.

As decisões políticas para lidar com isso refletirão nosso nível de empatia (ou de falta de empatia) com as pessoas em volta.

Curioso que, bem antes de escrever sobre a riqueza das nações, Adam Smith tenha escrito um tratado sobre empatia (A teoria dos sentimentos morais). O livro tem partes chatas, mas o primeiro capítulo, em que ele diz o que é empatia, é leitura obrigatória.

Não sei como deixam as pessoas terminarem a faculdade de economia sem ler isso (e a maioria dos economistas que conheço nem sabe que Smith escreveu o livro).

Para os candidatos a “novos políticos”, que se habilitam a ocupar o lugar dos que claramente não ligam para ninguém, a leitura é muito recomendável.

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Take five na Rio Branco

Minha total falta de esperança no mundo é interrompida, de tempos em tempos, por coisas inesperadamente boas que aparecem de repente – e deixam rastro, não somem da memória.

Há algumas semanas, andando na Av. Rio Branco depois do almoço, ouvi as inconfundíveis notas de Take five, de Paul Desmond (Time out, 1959). Para quem não conhece, vale clicar no link.

Foi duplamente espantoso porque, mau humor à parte, eu acreditava sinceramente que só tinham existido, até hoje, duas pessoas que sabiam tocar saxofone de verdade: Paul Desmond e Charlie Parker (as outras tiram sons melosos e grudentos do instrumento).

Bom, havia uma terceira pessoa, e ela estava tocando Take five embaixo de uma marquise com a caixa do saxofone aberta para os passantes deixarem notas (o que, obviamente, eu fiz).

O mundo não está perdido. Ainda há alguém, em algum lugar, fazendo alguma coisa boa (apesar de todas as dificuldades).

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Pixinguinha, a dois quarteirões, na Travessa do Ouvidor (ok, ele também sabia não ser grudento).

O diabo é grátis (e é quase de domínio público)

Até o dia 8 de agosto, vai estar de graça, no site da amazon, o livro que inscrevi no Prêmio Kindle de Literatura.

O site não permite que os livros sejam anunciados de graça por mais de cinco dias (de 4/8 a 8/8). Depois disso, então, o livro passará a custar R$ 1,99.

O livro conta a história de três estudantes de economia – do dia do trote na faculdade até os empregos no mercado.

A personagem mais curiosa é Patrícia que, vendo os projetos assustadores da consultoria onde trabalha (e as coincidências estranhas que acontecem à sua volta), se convence de que seu chefe é o diabo em pessoa.

Tentei implicar democraticamente com todas as escolas de pensamento econômico. Mas a parte mais divertida do texto é a do chefe diabólico que, pragmático, não parece seguir escola nenhuma.

O livro pode ser baixado para kindle, ipad e afins (e também lido na tela do computador) a partir da página neste link.

Bode da capa.

Vilões de filme, em carne e osso

A principal característica dos vilões de filme é a falta de empatia: a total indiferença ao sofrimento alheio.

De Voldemort a Darth Vader – passando por Freddy Krueger e similares -, é assim que eles são. Se começam a se importar, deixam de ser vilões (como Darth Vader, no filme VI).

Essa é a definição de maldade – pelo menos para os roteiristas de cinema.

Manter uma grande distância, criar camadas de hierarquia dentro de empresas, construir muros, ter aluguéis muito mais altos em algumas áreas, tudo isso ajuda a manter os diferentes isolados uns dos outros (e a aumentar a indiferença de quem está em um grupo por quem está em outro). Tudo isso conspira para  nos tornar mais parecidos com os vilões de filme.

Pensei nisso quando estava tentando criar um bom vilão para um conto. Mas, depois que comecei a pensar em divisões e muros, não consegui parar de associa-los às  políticas anti-imigração defendidas – com cada vez mais ênfase – por políticos na Europa e nos Estados Unidos.

Sim, é coisa de vilão de filme.

Falta fazer o filme ou, pelo menos, escrever o conto.

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Cozinheiro bovino: nenhuma empatia com o prato.

Murakami, Monk e os comedores de chocolate

A paz está no chocolate amargo. A sensação de paz, pelo menos. É possível que o mundo pareça perto do fim – com tiroteios na esquina, crise política e recessão interminável. Mas é possível que, ainda assim, nos sintamos calmos e tranquilos – graças ao chocolate (ficar angustiado, afinal, não ajuda).

As sensações não estão lá fora. Sim, o mundo em volta afeta nosso cérebro. Mas o chocolate também. E, dependendo da quantidade, talvez o chocolate prevaleça.

Mas se, mesmo com uma dose grande, o chocolate não funcionar, recomendo esta versão solo para piano de Round midnight, tocada pelo autor da música, Thelonious Monk.

Haruki Murakami – hoje famoso pelo pop 1Q84 – começa seu primeiro livro, Ouça a canção do vento, com a seguinte declaração (que me fez comprar o livro):

“- Não existe nenhum texto perfeito. Assim como não existe desespero perfeito.”

Entendi a correlação e sei que nunca vou produzir o texto perfeito – graças a Monk e a grandes doses de chocolate.

Mas, se nada disso surtir efeito, a alternativa escapista mais eficiente é Caçando carneiros, continuação de Pinball 1973, que é a continuação da Canção do vento. O livro funciona bem sozinho, sem os dois primeiros – e é o melhor Murakami que li até agora: uma passagem de ida para um mundo ainda mais surreal mas, curiosamente, mais bem humorado.

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Ovelha escapista imaginando quando 2016 vai realmente acabar.

O limite do egoísmo, segundo Smith

O Brasil não tem liberais (ou melhor: tem uns quatro ou cinco, entre os quais, eu mesmo). Aqui, quase todas as pessoas que se dizem liberais são conservadores disfarçados.

O clássico para ver quem é liberal e quem é conservador é perguntar sobre costumes. Um liberal de verdade defende a liberdade de costumes. Isso inclui liberação do uso de drogas, união civil entre pessoas do mesmo sexo, direito ao aborto e uma série de bandeiras que os conservadores preferem entregar de bandeja para a esquerda.

Esta semana, relendo A teoria dos sentimentos morais, encontrei mais um teste para diferenciar liberais de conservadores. O livro, publicado em 1759, é o primeiro grande tratado de Adam Smith. É um livro sobre ética.

O trecho abaixo, lido por um conservador brasileiro (ou por um aristocrata de qualquer lugar do mundo) o fará torcer o nariz. Se fosse levado a sério por aqui, não haveria falta de recursos para o SUS, as políticas públicas seriam mais bem executadas e, até nas empresas privadas, os chefes seriam mais solícitos.

“(…) talvez ter a notícia da morte de outra pessoa com a qual não tenhamos especial ligação nos cause muito menos interesse, tire muito menos nosso apetite, interrompa menos nosso descanso, do que uma insignificante desgraça que se abata sobre nós. Mas embora a ruína do nosso próximo possa nos afetar bem menos que um diminuto infortúnio nosso, não devemos arruiná-lo para prevenir esse pequeno infortúnio, nem mesmo para prevenir nossa própria ruína. Aqui, como em todos os outros casos, devemos nos ver não tanto sob a luz em que naturalmente nos mostramos a nós mesmos, mas sob a luz em que naturalmente nos mostramos aos outros.”

Smith discute muito, ao longo do livro, o tipo de empatia que as pessoas têm umas com as outras, a forma como vêem a si mesmas e como formam suas opiniões a respeito das outras pessoas.

No PDF do link acima, esse trecho está na página 74 (Seção 2, Capítulo 2 – Sobre o senso de Justiça, remorso e sobre a consciência do mérito). E, se você achou esse trecho hipócrita e não se importa em causar infortúnios à plebe para tornar sua vida um pouco mais confortável, parabéns: você é um aristocrata ultraconservador.

Por fim, um dos trechos mais revoltados do pai da teoria econômica. Esse me convence de que, se vivesse no Brasil de hoje, Smith seria um democrata, mas um democrata dos mais barulhentos.

“Apesar de tuas opiniões em questões especulativas, apesar de teus sentimentos em questões de gosto serem bastante contrários aos meus, posso facilmente ignorar essa oposição; e, se tenho alguma temperança, posso até mesmo apreciar a sua conversa, ainda que sobre esses mesmos temas. Mas se não tens nenhuma solidariedade para com meu infortúnio, ou nenhuma que seja proporcional à dor que me assola; ou se não sentes nenhuma indignação pelas ofensas que sofri ou nada que seja proporcional ao ressentimento que me arrebata, já não podemos conversar sobre esses temas. Tornamo-nos insuportáveis um ao outro. Não posso tolerar tua companhia, nem tu a minha. Ficarás confuso ante minha violência e paixão, e eu, irado com tua fria insensibilidade e falta de sentimentos.” (Em inglês  parece bem mais incisivo. Está no meio do primeiro parágrafo da página 16, faz parte do Capítulo 4 – Continuação do mesmo assunto).

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Falcão conservador, com iluminação e saneamento precários.